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Bom dia Comandante

Fraseologia adequada


Invariavelmente em minhas aulas de fraseologia de tráfego aéreo , tanto para pilotos como para controladores de tráfego aéreo sou questionado a respeito da legalidade da expressão supracitada. É correto ou não a sua utilização na fonia?


BOM DIA COMANDANTE !!!

DANIEL CELSO CALAZANS

Vejamos o que diz a nossa ICA 100 12 a respeito:

Item:15.3.3
Em todas as comunicações deverá ser observada, a todo momento, a maior disciplina, utilizando-se a fraseologia adequada, evitando-se a transmissão de mensagens diferentes das especificadas, tais como: bom dia, boa viagem, feliz natal, etc.

Item 15.3.8:
não devem ser utilizadas palavras que:

b) sejam vazias de siguinificado: OK. Ah, eé...

Deve ser evitar expressões do tipo: Bom dia bom tarde, etc.

Também surge uma dúvida, pois a rigor a fraseologia pátria não proíbe tais expressões, mas apenas diz que devem ser evitadas. Se quisesse proibir mais enfaticamente deveria utilizar expressões tais como: São proibidas as expressões ou é vedado o uso das seguintes expressões. Desta forma as dúvidas seriam dirimidas.


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AIRSPEAK - RADIOTELEPHONY COMMUNICATION FOR PILOTS – by F.A.
ROBERTSON – Published 1995 by Phoenix ELT (UK).

Greetings: Greetings like ‘good morning’, ‘good afternoon’ in the first call, and ‘good bye’ at the end of an exchange are very commonly used. They do not appear in official phraseologies, but ‘good morning’, ‘good afternoon’, or ‘good evening’ replaces ‘how do you read?’ at initial contact; and ‘good bye’ replaces ‘over’ or ‘over and out’. The greetings are a little of human exchange, and quite often the speaker will translate them into the language of the receiver (‘bonjour’) to a French person, ‘buenas dias’ to a Spaniard, etc.).

Conforme podemos extrair do texto essas expressões, embora não oficiais, são largamente usadas na fraseologia internacional e tidas como aceitáveis e o seu uso não constitui infração alguma, nem fere a fraseologia padrão.

Um argumento muito utilizado por muitos é no sentido de se houver um acidente o controlador de tráfego aéreo ou o piloto seria responsabilizado, até mesmo penalmente, pelo fato de ter utilizado uma fraseologia não padrão. Temos que refutar com muita veemência este tipo de argumento, pois procedem de incautos pretensos rábulas que  desconhecem os princípios básicos de direito, principalmente direito penal.

Em termos penais somente haverá responsabilidade  se  o uso destas expressões concorrer para o incidente ou acidente, caso contrário não há como cogitar  responsabilidade penal. Ou seja, a utilização da expressão deve estar dentro da linha de desdobramento. Há de ter um nexo causal entre a instrução emitida e o resultado, isto é, a utilização da expressão deve ser fator determinante para o incidente ou acidente. Se a utilização da expressão não contribuiu para a causa do acidente ou incidente não há porque falar em responsabilidade penal. Sinceramente, não consigo vislumbrar em termos práticos como um “BOM DIA” pode provocar um acidente. Nos meus vinte anos como controlador de tráfego aéreo não pude ver nenhum caso deste tipo. Não estou contra a proibição, quer proibir; que se proíba. Mas se que quiser fundamentar a proibição; que, no mínimo, haja lógica.

No entanto há expressões, ou palavras, que contribuem para um mal entendido podendo provocar acidente. Estas expressões devem, sim, ser afastadas do uso cotidiano. Uma delas que ocorre como uma certa freqüência é a ‘OK’ que tem sido utilizada indiscriminadamente como sinônima da palavra  ‘roger’(ciente); ás vezes é empregada erroneamente em resposta a uma solicitação de um cotejamento, isto é,  ‘readback’.

 Analisemos um caso por demais famoso em que esta palavra, embora não tenha sido determinante para o acidente, contribuiu de forma significativa para o trágico resultado.

Analisemos, apenas, parte da transmissão em que o uso incorreto da palavra “OK” foi fator contribuinte para o acidente.

Aconteceu em Tenerife em março de 1977 quando um B747 da Pan Am estava taxiando pela pista enquanto um outro B 747 da KLM já estava alinhado  na mesma pista aguardando apenas uma autorização da Torre de Controle para iniciar a decolagem.

Analisemos  a fraseologia que antecedeu a colisão entre as duas aeronaves:

  • KLM  “ We are now at take off ”  -

 Quando  a aeronave  da KLM transmitiu  esta mensagem, o controlador de tráfego aéreo entendeu que a aeronave estava pronta para decolar, quando na realidade o piloto quis dizer que já estava iniciando a sua decolagem. Em posse desta informação e sabendo que havia outra aeronave taxiando na mesma pista e  em sentido contrário o controlador de tráfego aéreo emitiu a seguinte mensagem para  a aeronave da  KLM:

  • TWR: “OK… standby for takeoff  I will call you”

 

Aguarde para a decolagem e eu te chamarei. Houve também uma breve pausa por parte do controlador após a palavra “OK” que contribuiu consideravelmente para o acidente.

 

Quando o piloto da Pan Am ouviu conversação entre o controlador  e o piloto  da KLM ficou  preocupadíssimo e, alarmado com a situação, emitiu a seguinte mensagem:

  • Pan Am : “We are still taxiing down  the runway!”

 

Ao transmitir esta mensagem, o piloto da Pan Am falou no mesmo momento em que controlador   instruiu o Boeing da KLM aguardar para decolar. Falando juntos, piloto da Pan Am e controlador, resultou numa transmissão sobremodulada. Desta forma o piloto da KLM só  ouviu parte da mensagem do controlador de tráfego. Somente ouviu o “OK....”, pois o resto da mensagem “... standby for takeoff I wil, call you”  não foi possível entender devido a pausa do controlador e a  sobremodulação.

Desta forma o piloto da KLM teve a seguinte interpretação das mensagens:

  • KLM: “ We are at takeoff ”
  • TWR: “ OK”

 

Desta forma o piloto da KLM interpretou a expressão “OK” como uma autorização para decolar e na rolagem colidiu com o  outro B 747 provocando o maior acidente aeronáutico da história matando 583 pessoas.

 

OBS: É evidente que outros fatores também contribuíram para o acidente, como por exemplo a visibilidade que era no momento da colisão de apenasxxxxm. Mas tão somente analisamos neste artigo o que se refere à fraseologia.

Podemos então entender como uma  palavra não padronizada pode interferir numa comunicação, devendo desta forma ser proibida, vetada não apenas evitada por ser uma palavra de vão significado. Neste caso podemos cogitar responsabilidade penal tanto do piloto como do controlador de tráfego aéreo.

Em nossa fraseologia  há certas recomendações que não explicam a real finalidade delas; e também não há norma alguma  ou curso algum no Brasil  que  venham a disciplinar ou explicar o uso ou as conseqüências deste uso, fazendo com que os usuários venham a aprender na “marra”, quer dizer, na prática. Porque não se deve falar “BOM DIA” na fonia? Quais são as conseqüências de seu uso? De que forma pode contribuir para um acidente? Porque a palavra “OK” deve ser evitada? Ou seria melhor proibir o uso destas expressões? Deve ser evitada somente nos momentos de grande movimento?

Há uma grande dúvida a respeito da legalidade do uso de certas expressões na fonia. Um fator que tem contribuindo muito para esta dúvida   está relacionado ao fato dos aeronautas, principalmente os estrangeiros, utilizarem com muita freqüência estas expressões na fonia.

Há dois argumentos para se acreditar que elas não são proibidas:

  • A rigor a nossa fraseologia não proíbe. Se teve por objetivo proibir não utilizou a melhor técnica de redação.

 

  • Não se houve falar que um piloto tenha sido punido por ter cumprimentado na fonia. (ITA – Infração de Tráfego Aéreo)

OBS: Há um princípio em Direito que bem se aplica aqui para melhor entendimento do tema:

O costume, a prática, o uso  não revoga nem cria  lei.

 Ou seja, o fato de ser largamente usado na prática não significa que está autorizado, que está liberado.

Analisemos também o que diz o Manual do Controlador de Tráfego Aéreo no capítulo que trata da RADIOTELEFONIA, item 6.2.5 c e a respectiva nota):

Utilize a fraseologia com disciplina, não transmitindo mensagens diferentes das especificadas, principalmente as de cortesia, felicitações ou cumprimentos, tais como: bom dia, boa viagem, etc; (grifo nosso)

NOTA: Esta restrição visa a evitar o congestionamento das freqüências e a veiculação de mensagens desnecessárias e alheias ao serviço de tráfego aéreo.

Esta nota apresenta dois termos: restrição e congestionamento, que tem feito com que muitos usuários, pilotos e controladores interpretem de forma, às vezes, duvidosa. Restrição não é Proibição. Restringir é limitar, é condicionar.  Congestionamento? O uso de saudações estaria restrito, limitado aos momentos de menor tráfego?

Se por outro lado é realmente proibido o uso de certas palavras, há de ser considerado e cumprido o que estipula o nosso Código Brasileiro de Aeronáutica a respeito da  fraseologia padrão:

Artigo 299:  Será aplicada multa de até 1.000 (hum mil valores de referência), ou de suspensão ou cassação de qualquer certificado da matrícula, habilitação, concessão, autorização, permissão ou homologação expedidos segundo as regras deste Código, nos seguintes casos:

Artigo 302. A multa será aplicada pela prática das seguintes infrações:

II – Infrações aplicáveis a aeronautas e aeroviários ou operadores de aeronaves:

t) operar aeronave deixando de manter fraseologia padrão nas comunicações radio-telefônicas.

Ou seja, a cada “BOM DIA” um aeronauta está arriscando o seu bolso em até 1.000 (hum mil valores de referência). “BOM DIA” na fonia tem preço e é caro. Quem disse que um cumprimento não custa nada?

Em relação a este assunto há também um outro questionamento: O que é fraseologia padrão? Se a saudação na fonia foge do padrão, o que fazer  com toda a aviação que invariavelmente utiliza estas expressões? Vamos cumprir ao que está estabelecido no CBA e providenciando para que a nossa lei seja cumprida a risca  e conseqüentemente havendo punição para todos os pilotos que fogem do padrão? Ou deixaremos como está  permitindo que o uso, a prática, venha a revogar uma norma? Norma sem sanção é norma morta. Se não há sanção, ou se esta não é cumprida, podemos sim,  afirmar que a prática, o uso, o costume revoga norma escrita.

BOM VÔO? Jamais. BOM DIA? Nem pensar.

Como professor de fraseologia de tráfego aéreo não aconselho  ninguém a se saudar na fonia, mas uma coisa está claro este assunto precisa ser mais bem estudado, pesquisado para que não haja dúvidas a respeito.

E tenham todos um  “BOM DIA” “BOA TARDE” "BOM VÔO”. Quer dizer... e aí pessoal o que eu digo agora?

ONLY CÂMBIO.


INSTITUTO PROFESSOR KALAZANS (IKA)
KALAZANS AVIATION ENGLISH (KAE)


› Controlador de Tráfego Aéreo
› Piloto Comercial
› Professor Universitário de Fraseologia de Tráfego Aéreo
› Professor de Fraseologia de Tráfego Aéreo na Escola de Especialistas de Aeronáutica
› Instituto do Controle de Espaço Aéreo (ICEA) e Projeto SKYSCIENCE
› especialista em Tráfego Aéreo Internacional (TAI)
› autor de livros sobre Teste ICAO e Fraseologia
› Estágio Operacional na TWR
› APP
› ACC Nova Iorque USA
› Cursou inglês na Callan School e Premier College na Inglaterra Palestrante.

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